
Síndromes e um Século (Sang Sattawat)
de Apichatpong Weerasethakul
(Tailândia/França/Áustria, 2006)
Apichatpong Weerasethakul vem se firmando como talvez o nome mais instigante de um certo cinema contemporâneo que dispensa estilizações de uma mise-en-scène afetada ou óbvia, como tende grande camada desse gênero, e tem em sua finalidade uma função mais reflexiva em termos de vida, memória afetuosa e uma concepção global doce e absurdamente plena em seu estado enigmático.
Síndromes e um Século, seu mais recente longa-metragem, é um tratado da memória aonde o diretor vislumbra relações humanas em seu mais completo encantamento. Tendo como base o passado de seus pais, ambos médicos em um pequeno hospital, Apichatpong realiza uma sinfonia visual aonde a conexão de um plano a outro, de uma pequena ação a outra, de uma ingênua conversa - que esconde um universo de sensações por trás - a outra, leva o espectador a um estado hipnótico raramente vivenciado dentro de uma sala de cinema. Dividido em duas partes (assim como seus filmes anteriores) a relação das duas camadas que compõem o todo nunca é explícita e sim extremamente necessária, chegando a dialogar entre si e se mostrando indispensável em uma leitura completa da obra.
Os meios que o diretor usa para chegar nesse estado de encantamento cabem mais em uma categoria intuitiva do que racional, tentar interpretar Síndromes e um Século talvez seja o pior erro de um espectador, ao invés disso é necessário uma completa imersão e seriedade diante do filme para receber em troca o grande presente desse realizador. Porque ao final de tudo a alegria quase metafísica que vibra no filme parece colocar fogo em nossos corações, a sensação de ser atingido em cheio por uma visão de mundo clara, alegre e acima de tudo honesta.
Em tempos aonde se instala no cinema uma tendência pessimista em filmes que se acomodaram a uma mesma estrutura cool e erroneamente inovadoras, Apichatpong Weerasethakul e seu discurso único vem se mostrando como talvez o maior exemplo de uma arte contemporânea audiovisual em constante fase de metamorfose e evolução. É preciso viver a harmonia e aceitar a viagem sensorial que esse autor nos propõe com felicidade e extrema atenção.
Texto selecionado para a oficina de crítica cinematográfica do CineEsquemaNovo 2007

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