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Língua de Brincar



Língua de Brincar
de Lúcia Branco e Gabriel Sanna
(Brasil, 2007)


Abstração Necessária

Utilizando uma fotografia digital que busca a abstração de certos elementos cotidianos, tais como um riacho filmado sempre em close e que exibe uma luz hipnótica particular, um sol que na variação da iris vai devorando o plano, uma imagem preto e branco em baixa resolução com shutter e mesclando tudo isso com um trabalho de som que destoa justamente para buscar a mesma abstração. Temos no filme de Lúcia Branco e Gabriel Sanna uma direção despojada, porém com grande preocupação em transcrever o mundo de sutilezas cotidianas do poeta Manoel de Barros para o mundo do audiovisual digital. Um digital aqui extremamente necessário em seus pequenos efeitos, visto que no longa adquire uma função de tecido dissonante que nos mantem agregados a toda essa dessintonização literária e apaixonante do dia-a-dia que são os poemas de Barros.

Narrando a viagem de quatro amigos que tem como destino levar uma carta ao poeta, o que poderia ser um road-movie afetado, como tendem filmes com esse enredo, se transforma em uma viagem que ao longo de seu trajeto é recortada por impressões sentimentais dos leitores e amigos de Manoel, adquirindo um tom afetivo que nos nutre durante durante a projeção.

Língua de Brincar tem seu grande mérito quando faz da liberdade uma escolha e sendo assim resolve também brincar, destoar seus planos e seu ritmo igualmente como as palavras do poeta. Quando vemos parte da pequena equipe do filme refletida em espelhos, falando ao telefone (o que rende belas seqüências), ou apenas suas vozes comentando sobre o documentário que estão tentando fazer e pequenos detalhes da produção, é outra vez esse despojamento cotidiano que adquire uma significação maior, um estar a vontade a tudo e a todos a sua volta que de tão apaixonado cativa inevitavelmente o espectador.

Esse que talvez seja um dos mais instigantes documentários a serem lançado esse ano no Brasil (espero que exista distribuição), se destoa tanto da produção desse gênero na atualidade em nosso país, justamente porque possui todo esse conjunto de elementos autorais que se reforçam durante a montagem e fazem dessa abstração uma necessidade para se entregar por completo ao universo desse escritor. Um objeto estranho na atual filmografia brasileira que merece atenção e profunda apreciação.


Filme visto no CineEsquemaNovo 2007, aonde fiz parte do júri do prêmio da Nova Crítica.

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